Balduíno IV

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs

Balduíno IV: o rei de Jerusalém
herói, santo e leproso



Guilherme de Tiro descobre a doença do menino rei.
Guerreiro providencial

Se, porém, pouco se fala da existência estável de um extenso reino católico na Palestina, menos ainda se realça os gloriosos fatos que lá se passaram.

E quase não se menciona a figura de um homem excepcional, intrépido guerreiro até o holocausto por amor à Religião católica, Balduíno IV (1160 - 1185), o rei leproso de Jerusalém, que subiu ao trono aos 14 anos de idade.

No momento em que as maiores adversidades se acumulavam naquele Reino, a Providência divina parece ter querido suscitar um homem – melhor diríamos, uma chama de fé e coragem – para mostrar que tudo ainda poderia ser salvo se o quisessem seguir e imitar.

Balduíno IV lutou contra a lepra, doença então incurável, que nele se manifestou desde criança e o foi pragressivamente transformando num morto-vivo, quase um fantasma chagado, até levá-lo ao túmulo aos 25 anos de idade.

Lutou continuamente, com grande inteligência e firmeza, para resolver os graves problemas resultantes das desavenças entre os senhores feudais, as quais lhe causavam as maiores preocupações.

E teve de lutar, sobretudo contra numerosíssimos muçulmanos, nunca antes tão fortes e tão unidos sob a égide do terrível sultão Saladino, que atacava freqüentemente o Reino católico para desmantelá-lo.

A todos esses fatores altamente adversos, Balduíno IV soube sobrepor-se com fé e abnegação tais, que até hoje deixam boquiabertos os historiadores que dele se ocupam.

Nos últimos anos de sua vida, fisicamente inutilizado pela doença, fazia-se conduzir ao campo de batalha em liteira.

E sua presença incutia tal ânimo em seu exército e tal pavor no inimigo que, leproso e imóvel, ganhava para Cristo batalhas contra exércitos poderosíssimos.

“Sou um verme e não um homem” (Sl. 21, 7)

Eis seu retrato, em agosto de 1183:

“Do belo menino louro que nove anos antes havia recebido com fasto a coroa, não restava senão um inválido, um ser decaido, repugnante.

“O belo rosto não era mais que placas de carne marrom, fechando três quartas partes das órbitas, das quais todo olhar fugira para sempre, cortando-o do mundo, mergulhando-o numa noite eterna.

“Suas mãos elegantes estavam reduzidas ao estado de cotos. Seus dedos amortecidos haviam caído uns após outros, putrefatos.

“Seus pés haviam tido a mesma sorte e estavam como encolhidos pelo mais cruel dos torcionários chineses.

“Coberto de placas e bolhas, o resto do corpo não estava diferente para se ver. Este homem que perdia pouco toda semelhança com um ser humano comunicava-se ainda com o mundo através de uma boca deformada.

“Pois se o corpo era pouco a pouco destruído, o espírito permanecia firme. Ao preço de esforços por vezes espantosos, ele continuava a assumir seu papel de rei.

“Jamais ele havia faltado a um combate, jamais fugido a uma responsabilidade. Agora, entretanto, que a febre fazia tremer seu infeliz corpo, no sufocante calor do mês de agosto, pela primeira vez ele se sentia sem possibilidades de empreender a menor coisa...

“A crise foi mesmo tão forte que ele teve medo de morrer. Não de comparecer diante de seu Criador, pois para isso ele estava há muito tempo preparado, mas de privar bruscamente seu Reino, seu exército, de um chefe”.* (Dominique Paladilhe, Le Roi lépreux, Paris, 1984).

Saladino foge

Em novembro desse mesmo ano, Saladino cerca com grandes contingentes armados uma estratégica fortaleza católica, o Crac de Moab.

“O exército cristão preparava-se para acorrer em auxílio dos sitiados, infelizmente, porém, minado por divisões internas:

“Então se produziu um acontecimento impressionante, escreve Paladilhe. Balduíno, a quem se imaginava agonizante, horrível e totalmente enfermo, já mergulhado nas trevas da eternidade, parecendo cortado do mundo, levantou-se de seu leito de mártir como um miraculado e manifestou sua intenção de seguir o exército.

“Animado por uma energia fora do comum, ele não renunciou. A todos ele iria mostrar o que era ser rei... Com ele a união se refez em torno de sua liteira de cortinas cuidadosamente baixadas”

“À aproximação do exército cristão, os muçulmanos se retiram: “O grande Saladino fugia diante de um fantasma... encerrado atrás das cortinas de sua liteira”. A simples presença do rei leproso tudo salvara.

No ano seguinte, nova tentativa dos muçulmanos: “Os defensores do Crac viram com estupor chegar a multidão infinita de seus agressores. Saladino tinha praticamente dobrado suas forças”.

“Vem, por fim, o exército cristão “pronto a enfrentar em combate desigual as forças de Saladino. O que lhe dava este ardor, esta coragem, era uma presença no meio dele, a de seu rei Balduíno.

“Havia da parte dele uma espécie de deliberação, de obsessão de seu dever, à qual não faltava grandeza. Até o fim ele queria ser um exemplo para todos de força de vontade e de sacrifício. Ante tanta nobreza, tanto desprendimento, as divisões internas entre os cristãos desapareciam em torno dele.

“Há aí um caso excepcional, único na História. O sultão ficou vivamente impressionado pela chegada heróica de Balduíno”, e acabou por retirar-se.

Seu biógrafo conclui: em face de Balduíno IV, “como não ficar tomado de admiração, de veneração mesmo... Em vão se procurará, através dos milenários a quem compará-lo. Jamais se viu reunidos num príncipe tanta coragem e espírito de sacrifício.

“É tempo que sua face perfurada pela lepra, mas resplandecente de uma luz interior, entre por sua vez na legenda com Godofredo de Bouillon e São Luís”.

(Autor: Gregório Vivanco Lopes, "Catolicismo", abril de 1992




O rei de fábula cheia de luz sobrenatural


Esse jovem monarca, quase desconhecido na História, foi entretanto dos mais heróicos cruzados e protótipo de soberano virtuoso, comparável a São Luís IX.

Balduíno, filho de Amaury I de Jerusalém e de Inês de Courtenay, nasceu no ano de 1160 na Cidade Santa, Jerusalém. Apesar de o casamento de Amaury ter sido anulado por questão de parentesco, os filhos dele nascidos, isto é, Amauri e Sibila, foram considerados legítimos herdeiros da Coroa.

Um dia em que Balduíno brincava de guerra com outros meninos de sua idade, seu preceptor notou que, enquanto os demais gritavam quando eram atingidos, ele parecia nada sentir.

Perguntando-lhe a razão disso, o menino respondeu que os outros não o feriam, e por isso não manifestava dor e não gritava. Mas, reparando o preceptor em suas mãos e braços, percebeu que estavam adormecidos.

O rei foi informado e mandou vir os melhores médicos, que ministraram emplastros, ungüentos e outras medicinas à criança, sem alcançar entretanto resultado algum. Era o começo de uma doença que iria progredir à medida que Balduíno fosse crescendo.

Em suma, esse menino tão belo, tão ajuizado e já tão sábio fora atingido por um mal terrível, que se revelou logo: a lepra, que lhe valerá o trágico cognome de o Leproso.

Dificuldades: doença, divisão interna e Islã

Com a morte prematura de Amaury, Balduíno foi aclamado rei aos 13 anos. Nessa época ele era um adolescente encantador, o mais cultivado dos príncipes de sua família, “dotado de uma grande vivacidade de espírito, se bem que gaguejando ligeiramente como seu pai, e de uma excelente memória”, escreve seu historiador e preceptor, Guilherme de Tiro(1).

“O reino desse infeliz jovem, de 1174 a 1185, não foi senão uma longa agonia. Mas uma agonia a cavalo, face ao inimigo, toda enrijecida no sentimento da dignidade real, do dever cristão e das responsabilidades da coroa nessas horas trágicas em que o drama do rei correspondia ao drama do reino”(2).

Com efeito, o clima deste era de insubordinação, muitos procurando seguir apenas seus interesses pessoais. Foi essa funesta divisão entre os cristãos que levou, pouco depois, à perda de todos os reinos que haviam sido conquistados pelos cruzados na Palestina.

Já aos 15 anos e leproso, derrota islamitas

De 26 de junho a 29 de julho do ano de 1176, o sultão Saladino assediou a cidade de Alepo. Balduíno IV, que na ocasião contava apenas 15 anos e a lepra não havia ainda minado suas energias, partiu em socorro daquele bastião cristão, coadjuvado pelo Conde de Trípoli, Raimundo III.

Juntos, conquistaram grande vitória sobre os muçulmanos.

“Assim, mesmo sob o reino do pobre adolescente leproso, mesmo em presença da unidade muçulmana quase inteiramente reconstituída, a dinastia franca da Síria manteve os inimigos em cheque. Apesar de sua enfermidade — logo ele não viajará mais senão em liteira —, Balduíno IV, precocemente amadurecido pela dor, demonstrou uma força de alma diante da qual a História deve se inclinar com respeito”(3).

Progredindo a lepra, Balduíno viu a necessidade de assegurar sua sucessão. Para isso só havia suas duas irmãs, Sibila e Isabel. Esta última era filha do segundo casamento de seu pai.

Sobre Sibila, a mais velha, repousava em particular o futuro da dinastia, pois, segundo o costume do país, seu esposo seria rei de Jerusalém.

Jesus Cristo à testa dos cruzados
Jesus Cristo à testa dos cruzados
A escolha do esposo recaiu sobre o príncipe piemontês Guilherme Longa-Espada, um dos mais nobres da Cristandade, primo do Imperador Frederico Barbarroxa e do Rei da França, Luís VII.

Tal casamento, que se realizou em 1177, foi efêmero, pois Guilherme faleceu três meses depois, deixando sua jovem esposa à espera de um herdeiro, o futuro Balduíno V. Esse nascimento póstumo, trazendo como conseqüência para o reino uma nova regência, só poderia enfraquecê-lo ainda mais.

Enquanto isso, Balduíno IV apressou-se em renovar a aliança com o Imperador bizantino Manuel Comeno para, juntos, invadirem o Egito.

As circunstâncias pareciam favoráveis, em virtude das hostilidades que Saladino estava sofrendo na Síria naquela ocasião. Entretanto, como a lepra impedia Balduíno de comandar a expedição, ele ofereceu o comando ao Conde Felipe de Alsácia, que se encontrava em Jerusalém com seus homens.

Mas este, para surpresa geral, não aceitou o convite. Julga-se que Felipe queria suceder ao rei leproso, sendo seu primo. Sua recusa fez fracassar a aliança e comprometer ainda mais os interesses cristãos na Terra Santa.

Fé e heroísmo: causas de vitória inimaginável

Em 1177 Balduíno, cedendo às instâncias do Conde de Flandres, emprestou-lhe grande parte de suas tropas para que este tentasse uma expedição contra Hamas. Sabendo que Jerusalém estava assim desguarnecida, Saladino reuniu todas suas tropas para invadir o reino cristão.

A situação neste era trágica. Balduíno não dispunha senão de 500 cavaleiros. Por outro lado, o Condestável Onfroi de Toron, que o podia ajudar na direção da defesa, caiu gravemente doente.

Nessas circunstâncias quase desesperadas, o jovem rei leproso foi heróico. À aproximação do inimigo, reunindo tudo que podia encontrar de combatentes, saiu com a relíquia da Santa Cruz e chegou a Ascalon.

Mandou uma ordem a Jerusalém e a todo o reino, convocando todos os homens capazes de portar armas a reunirem-se a ele. Mas, quando o reforço se aproximava da Cidade Santa, foi capturado por Saladino.

Julgando-se já dono da situação, o sultão ismaelita permitiu que suas tropas se dispersassem, pilhando, matando, fazendo prisioneiros por toda parte.

Ébrio pelo sucesso, Saladino mostrou-se de uma crueldade inaudita. Mandou reunir os prisioneiros e lhes esmagou a cabeça.

Certo de que os francos estavam reduzidos à impotência, o sultão protegeu-se atrás das muralhas de Ascalon, quando viu aparecer subitamente o rei leproso e seu pequeno exército. Foi no dia 25 de novembro de 1177.

Tinham eles anteriormente perseguido os muçulmanos esparsos, derrotando-os.

Após a batalha, ação de graças no Santo Sepulcro

Os cruzados caíram como um raio sobre o exército de Saladino.

“Ágeis como lobos, ladrando como cães, atacaram em massa, ardentes como a chama”(4), com a relíquia da Santa Cruz à frente, portada pelo bispo de Belém.

Os cristãos tiveram a impressão de que a Cruz crescia até tocar o céu. O cronista siríaco Miguel, Patriarca da Igreja jacobita, contemporâneo dos acontecimentos, assim descreveu a milagrosa batalha de Montgisard:

“O Senhor teve piedade dos cristãos. Todo mundo tinha perdido a esperança, porque o mal da lepra começava a aparecer no jovem rei Balduíno, que enfraquecia, e desde então cada um tremia.

“Mas o Deus que fazia aparecer sua força nos fracos inspirou o rei doente. O resto de suas tropas reuniu-se em torno dele.

“Ele desceu de sua montaria, prosternou-se com a face contra a terra diante da Cruz e rezou com lágrimas. À vista disto, o coração de todos os soldados se enterneceu.

“Eles estenderam todos a mão sobre a verdadeira Cruz e juraram jamais fugir; e, em caso de derrota, olhar como traidor e apóstata quem fugisse em vez de morrer.

“Montaram de novo nos cavalos e avançaram contra os turcos, que se regozijavam, pensando já os ter derrotado.

“Vendo os turcos, de quem a força parecia um mar, os francos deram-se mutuamente a paz e pediram uns aos outros um mútuo perdão. Em seguida engajaram a batalha.

“No mesmo instante o Senhor fez cair violenta tempestade, que levantava a poeira do lado dos francos e a lançava no rosto dos turcos.

“Então os francos, compreendendo que o Senhor havia aceito seu arrependimento, tomaram coragem, enquanto os turcos deram meia-volta e fugiram. Os francos os perseguiram, matando e massacrando durante o dia todo”(5).

Somente a fidelidade dos mamelucos salvou Saladino de morte certa.

Balduíno IV retornou a Jerusalém como triunfador e foi render graças ao Deus dos Exércitos na igreja do Santo Sepulcro.

“Jamais vitória cristã mais bela tinha sido infligida ao Levante, e todo o mérito voltava-se ao heroísmo do rei, cuja juventude [tinha então 17 anos], triunfando por um instante do mal que corroía o corpo, igualou-se em maturidade a um Godofredo de Bouillon ou a um Tancredo”(6).


Coragem e resignação ante a devastação da lepra

Balduíno continuou a infligir derrotas aos islamitas, embora não pudesse vencer a luta que se travava em seu próprio corpo entre a lepra e as partes sãs. Aquela o deformava de tal maneira, que assim é descrito por um historiador, em 1183:

“Do belo menino louro, que nove anos antes havia recebido com fausto a coroa, não restava senão um inválido, um ser decaído, repugnante.

O belo rosto não era senão placas de carne marrom, fechando três quartas partes das órbitas, das quais todo olhar fugira para sempre, cortando-o do mundo, mergulhando-o numa noite eterna.

Suas mãos elegantes estavam reduzidas ao estado de cotos. Seus dedos amortecidos haviam caído uns após outros, putrefatos. Seus pés haviam tido a mesma sorte e estavam como encolhidos pelo mais cruel dos torcionários chineses.

Coberto de placas e bolhas, o resto do corpo não estava diferente para se ver. [...]

Ao preço de esforços por vezes espantosos, ele continuava a assumir seu papel de rei.

Jamais havia faltado a um combate, jamais fugido a uma responsabilidade”(7).

Balduíno IV, o rei heróico e virtuoso, semelhante ao admirável monarca francês São Luís IX, e cuja vida não foi senão uma lenta agonia, entregou a Deus sua alma pura no mês de março de 1185, aos 24 anos de idade.

“Tendo mantido até seu último suspiro a autoridade monárquica e a integridade do reino, soube também morrer como rei”.(8)

* * *
Notas:
(1) René Grousset, Histoire des Croisades et du Royaume Franc de Jérusalem, Paris, Librairie Plon, Les Petits-Fils de Plon et Nourrit, 1935, p. 610.
(2) Id., ib., pp. 610-611.
(3) Id. ib., pp. 632-633.
(4) Id. ib., p. 658.
(5) Michel le Syrien, III, p. 375. apud René Grousset, op. cit., p. 657.
(6) René Grousset, op. cit., p. 663.
(7) Dominique Paladilhe, Le Roi Lépreux, Perrin, Paris, 1984, apud Gregório Lopes, Catolicismo, abril/1992.
(8) René Grousset, op. cit., p. 744.

(Fonte: Lepanto)





O rei católico que venceu Saladino e o Islã


Vitral do rei Balduíno na Basílica de Saint-Denis, França
Balduíno IV (1161 – 1185) foi o último rei de Jerusalém com espírito de Cruzada. Guy de Lusignan, seu sucessor, foi um interesseiro, sob cujo reinado a Civilização Cristã perdeu a posse da Cidade Santa.

Na história das Cruzadas, nada é mais emocionante que o reinado doloroso de Balduíno IV.

Nada, entre os vários exemplos famosos, pode atestar melhor o império de um espírito de ferro sobre uma carne débil.

Foi um rei sublime, que os historiadores tratam só de passagem, o que faz perguntar por que até aqui nenhum escritor se inspirou nele, exceto talvez o velho poeta alemão Wolfram von Eschenbach.

Nem o romance nem o teatro o evocam, entretanto sua breve existência cheia de acontecimentos coloridos forma uma apaixonante e dilacerante tragédia.

O destino sorria à sua infância. Robusto e belo, ele era dotado da inteligência aguçada de sua raça angevina (de Anjou).

Tinha sido dado a ele por preceptor Guilherme de Tiro, que se tomou de “uma grande preocupação e dedicação, como é conveniente a um filho de rei”. O pequeno Balduíno tinha muito boa memória, conhecia suficientemente as letras, retinha muitas histórias e as contava com prazer.

Um dia em que brincava de batalha com os filhos dos barões de Jerusalém, descobriu-se que tinha os membros insensíveis:

“Os outros meninos gritavam quando eram feridos, porém Balduíno não se queixava. Este fato se repetiu em muitas ocasiões, a tal ponto que o arquidiácono Guilherme alarmou-se.

“Primeiro pensou que o menino fazia uma proeza para não se queixar.

“Então perguntou-lhe por que sofria aquelas machucaduras sem queixar-se.

“O pequeno respondeu que as crianças não o feriam, e ele não sentia em nada os arranhões.

“ Então o mestre examinou seu braço e sua mão, e certificou-se de que estavam adormecidos” (L’Eraclès). 
Saladino incendeia cidade, Chroniques de Guilhaum de Tyr, BNF, Mss fr 68

Era o sinal evidente da lepra, doença terrível e incurável naquele tempo.

Os médicos aos quais foi confiado não podiam sustar a infecção, nem mesmo retardar a lenta decomposição que afetaria suas carnes.

Toda sua vida não foi senão uma luta contra o mal irremissível.

Mais ainda, muito mais: foi testemunho dos poderes de um homem sobre si mesmo e da encarnação assombrosa dos mais altos deveres.

Balduíno IV foi um rei digno de São Luís, um santo, um homem enfim — e é isso, sobretudo, que importa à nossa admiração sem reticências — a quem nenhuma desgraça chegou a destruir o vigor de alma, as convicções, a altivez, as qualidades de coração, o senso das responsabilidades, dos quais ele hauria o revigoramento da coragem.

No fim de 1174, Saladino, senhor do Egito e de Damasco, veio sitiar Alepo. Os descendentes de Noradin pediram socorro aos francos.

Raimundo de Trípoli atacou a praça forte de Homs e Balduíno IV empreendeu uma avançada vitoriosa sobre Damasco. Estas iniciativas fizeram com que Saladino abandonasse seu desejo inicial.

Em 1176 o sultão voltou à carga, e a mesma manobra frustrou seus planos. Balduíno venceu seu exército de Damasco, em Andjar, e trouxe um belo lucro da expedição. Nesta ocasião ele tinha quinze anos.

Apesar de sua doença, cavalgava como um homem de armas, empunhando eximiamente a lança.

Nenhum de seus predecessores teve tão cedo semelhante noção da dignidade real de que estava investido, e de sua própria utilidade.

Balduíno IV na batalha de Montgisard, detalhe.
Charles Philippe Larivière (1798-1876)
Percebendo as rivalidades existentes entre os que o cercavam, compreendeu quão necessária era sua presença à cabeça dos exércitos católicos.

Mas que calvário deveria ser o seu!

Aos sofrimentos físicos juntava-se a angústia moral: seu estado impedia-o de se casar, de ter um descendente.

Ele não era senão um morto-vivo, um morto coroado, cujas pústulas e purulências se disfarçavam sob o ferro e a seda, mas que se mantinha de pé e se lançava à ação, movido não se sabe por que sopro milagroso, por que alta e devoradora chama de sacrifício.

Um novo cruzado — Filipe de Alsácia, conde de Flandres e parente próximo de Balduíno IV — acabava de desembarcar. O pequeno rei Balduíno esperava muito desse apoio.

Estava claro que era necessário ferir Saladino no coração de seu poderio — isto é, no Egito — se se quisesse abalar a unidade muçulmana. Era isso, precisamente, o que propunha o basileus, imperador de Bizâncio.

O Egito, uma vez conquistado em parte, Damasco não poderia deixar de subtrair-se ao poder cambaleante de Saladino.

Mas Filipe de Alsácia opinava de outra forma. Ninguém poderia impedi-lo de ir guerrear na Síria do Norte, e, o que era mais grave, de levar consigo parte do exército franco.

Vale de Montgisard
Saladino respondeu invadindo a Síria do Sul. Balduíno reuniu o que lhe restava da tropa, desguarneceu audaciosamente Jerusalém e partiu para Ascalon, onde Saladino investia. Este, logo que foi informado, subestimou seu adversário. Ele acreditava que a queda de Ascalon era uma questão de dias, e marchou sobre Jerusalém com o grosso de seu exército.

Balduíno compreendeu suas intenções. Saiu de Ascalon, fez um longo périplo e caiu repentinamente sobre as colunas de Saladino, em Montgisard.

O efeito da surpresa não compensava a desproporção dos efetivos em luta, e Balduíno sentiu a hesitação dos seus. Desceu do cavalo, prosternou-se com o rosto na areia, diante do madeiro da verdadeira Cruz, que era levada pelo Bispo de Belém, e orou com a voz banhada de lágrimas.

Com o coração convertido, seus soldados juraram não recuar, e considerariam traidor quem voltasse atrás. Rodeando o Santo Lenho, o esquadrão de trezentos cavaleiros se lançou impetuosamente.

“O vale entulhava-se com a bagagem do exército de Saladino — diz Le Livre des Deux Jardins — os cavaleiros francos surgiam ágeis como lobos, latindo como cães. Atacavam em massa, ardentes como uma chama”. 

E puseram em fuga o invencível Saladino.

Se este salvou a pele, foi graças à rapidez de seu cavalo e ao devotamento de sua guarda. Retornou ao Egito, abandonando milhares de prisioneiros. Balduíno logrou, enfim, uma vitória sem precedentes.

Balduíno IV em Montgisard, Charles Philippe Larivière (1798-1876)
No ano seguinte Balduíno edificou o Gué-de-Jacob, fortaleza destinada a defender a Galiléia dos ataques de Damasco. Guilherme de Tiro pretende que isso tenha sido feito pelas prementes solicitações de Odon de Saint-Amand, grão-mestre do Templo.

Em todo caso, qualquer que tenha sido o inspirador da ideia, não há dúvida quanto à importância estratégica de Gué-de-Jacob.

Em 1179 Saladino invadiu a Galiléia. Balduíno foi ao seu encontro, tentando surpreendê-lo como tinha feito em Montgisard. Mas como os muçulmanos se contivessem, ele foi cercado e caiu prisioneiro.

Muitos foram mortos e presos nesse dia. Pouco depois Saladino tomou Gué-de-Jacob e fez executar todos os templários que a defendiam.

Sybila, irmã do rei, acabava de casar — contrariamente aos interesses de Estado — com Guy de Lusignan, homem de beleza discutível, sem fortuna e sem talento.

Balduíno, pressionado pelos seus, minado pela doença, tinha consentido nessa união e dado a Lusignan os condados de Jaffa e Ascalon.

Tão logo a insignificância do marido de Sybila se manifestou, atiçaram-se as esperanças dos senhores feudais. Contava-se que o irmão de Lusignan, comentando o casamento, disse: “Se Guy for Rei, eu deveria ser Deus!” Tal a mediocridade que lhe era atribuída.

Renaud de Chatillon, turbulento e belicoso vassalo
Nessa mesma ocasião, Isabel de Jerusalém desposava Anfroi de Toron, filho indigno de seu pai, o falecido condestável de Jerusalém, morto em defesa do rei.

O estado de Balduíno IV piorava dia a dia. Foi uma provação para sua mãe — que não tinha boa fama — e para a roda de seus cortesãos ambiciosos e amorais, ver a aproximação de Balduíno com Raimundo de Trípoli, único homem capaz de o aconselhar sabiamente.

Nesse momento reapareceu, libertado dos cárceres muçulmanos, o antigo príncipe de Antioquia, Renaud de Châtillon.

Logo recomeçou suas aventuras, assaltando uma importante caravana de peregrinos com destino a Meca.

Esse ato rompia a trégua assinada por Balduíno IV e Saladino e ofendia as convicções religiosas dos muçulmanos, a cujos olhos o atentado afigurava-se monstruoso.

Intimado pelo rei a devolver os prisioneiros e o produto da pilhagem, ele recusou-se com arrogância, tornando assim evidente a incapacidade do doente de se fazer obedecer.

Imediatamente Saladino acorreu do Egito e invadiu a Galiléia, incendiando e devastando as colheitas, capturando rebanhos e semeando pânico por toda parte.

Renaud de Châtillon suplicou ao rei que salvasse seus feudos. Balduíno concedeu, vencendo Saladino em julho de 1182.

Em agosto, o infatigável maometano tentou tomar Beyrouth por uma ação combinada por terra e mar.

Uma vez mais Balduíno afastou o perigo. Impediu Saladino de se apoderar de Alepo e conduziu uma expedição até os subúrbios de Damasco.

Episódios da vida de Balduino IV.
BNF, Richelieu Manuscrits Français 2628
Assim, por toda parte, graças à sua energia sobre-humana, e ainda que daí em diante ele se fizesse carregar em liteira para as batalhas, o heroico leproso levava vantagem sobre o genial muçulmano.

Ele começava entretanto a perder a vista, a não poder mais se servir de seus membros.

Os que lhe eram mais chegados o pressionavam a abandonar os afazeres do reinado, ou ao menos passar parte de suas responsabilidades a Guy de Lusignan.

Pode-se bem imaginar o drama interior desse rei de 22 anos, corroído por úlceras, semi-paralisado e quase cego, cercado pelas sombras da desconfiança e dos maus pressentimentos, atormentado de um lado pelas insinuações e sugestões pérfidas dos seus, e de outro pela alta idéia que ele fazia de sua missão de rei.

Se a lepra o enfraquecia, se ele não podia ter esperanças de se curar, sempre, entretanto, encontrava novas forças e resistia da melhor forma às ciladas da camarilha.

Como a doença entrasse numa fase evolutiva, ele devia lutar contra ela, e sobretudo contra a tentação de abandonar tudo para morrer em paz.

Foi num desses períodos que ele consentiu, se bem que a contragosto, em investir Guy de Lusignan na regência do reino.

No primeiro encontro com Saladino, Lusignan deixou o exército franco ser massacrado. Recusou com altivez prestar contas a Balduíno IV, que o destituiu de seu cargo.

Para evitar que, pela complacência de Sybila, Lusignan se tornasse rei de Jerusalém após sua morte, designou seu sucessor o pequeno Balduíno V, filho de Guilherme “Longue Epée”.

Como a situação da Terra Santa estivesse desesperadora, ele enviou uma embaixada ao Ocidente, composta pelo Patriarca de Jerusalém, pelo Mestre do Hospital e pelo Mestre do Templo, o velho Arnaud de Torrage.

Morte de Balduino IV, o rei, herói e mártir de Jerusalém
Renaud de Châtillon, que indiretamente tinha ajudado o rei a se desembaraçar de Lusignan, achou-se autorizado a retomar suas pilhagens, agora na mais alta escala.

Armou uma frota, que foi transportada ao Mar Vermelho em dorso de camelo. Devastando portos, interceptando comboios, essa frota ameaçou por algum tempo o caminho para Meca.

Saladino, excitado até o cúmulo do furor, destruiu os navios de Renaud e depois sitiou-o em sua própria fortaleza, o Krac de Moab. Balduíno IV reapareceu, agonizando em sua liteira, para lhe fazer frente. Saladino retirou-se.

O último ato de Balduíno IV foi o de reunir em São João d’Acre o parlamento de seus barões. Guy de Lusignan, incapaz e rebelde, foi então oficialmente afastado do trono, e — o que não era senão justiça e sabedoria — a regência foi confiada a Raimundo de Trípoli.

Mais tarde, a 13 de março de 1185, o mártir rendeu sua alma a Deus, em presença se seus vassalos, dignitários e bons companheiros de guerra.

Até os infiéis lhe tributaram homenagens.


(Autor: Georges Bordonove, “Les Templiers”, in “Catolicismo” nº 303)




Montgisard: Balduíno de maca e 500 templários desfazem o exército de Saladino


Saladino viu aparecer subitamente o rei leproso e seu pequeno exército
Saladino viu aparecer subitamente o rei leproso e seu pequeno exército
Em 1177, o rei de Jerusalém Balduíno IV, cedendo às instâncias do Conde de Flandres, emprestou-lhe grande parte de suas tropas para que este tentasse uma expedição contra Hamas.

Sabendo que Jerusalém estava assim desguarnecida, Saladino reuniu todas suas tropas para invadir o reino cristão. A situação neste era trágica. Balduíno não dispunha senão de 500 cavaleiros.

À aproximação do inimigo, reunindo tudo que podia encontrar de combatentes, saiu com a relíquia da Santa Cruz e chegou a Ascalon.

Julgando-se já dono da situação, o sultão ismaelita permitiu que suas tropas se dispersassem, pilhando, matando, fazendo prisioneiros por toda parte.

Ébrio pelo sucesso, Saladino mostrou-se de uma crueldade inaudita. Mandou reunir os prisioneiros e lhes esmagou a cabeça.

O sultão viu aparecer subitamente o rei leproso e seu pequeno exército, em Montgisard, no dia 25 de novembro de 1177.

Os cruzados caíram como um raio sobre o exército de Saladino.

“Ágeis como lobos, ladrando como cães, atacaram em massa, ardentes como a chama”, com a relíquia da Santa Cruz à frente, portada pelo bispo de Belém.

O cronista siríaco Miguel, Patriarca da Igreja jacobita, contemporâneo dos acontecimentos, assim descreveu a milagrosa batalha de Montgisard:

“O Senhor teve piedade dos cristãos. Todo mundo tinha perdido a esperança, porque o mal da lepra começava a aparecer no jovem rei Balduíno, que enfraquecia, e desde então cada um tremia.

“Mas o Deus que fazia aparecer sua força nos fracos inspirou o rei doente. O resto de suas tropas reuniu-se em torno dele.

“Ele desceu de sua montaria, prosternou-se com a face contra a terra diante da Cruz e rezou com lágrimas. À vista disto, o coração de todos os soldados se enterneceu.

Os cruzados caíram como um raio sobre o exército de Saladino
Os cruzados caíram como um raio sobre o exército de Saladino
“Eles estenderam todos a mão sobre a verdadeira Cruz e juraram jamais fugir; e, em caso de derrota, olhar como traidor e apóstata quem fugisse em vez de morrer.

“Montaram de novo nos cavalos e avançaram contra os turcos, que se regozijavam, pensando já os ter derrotado.

“Vendo os turcos, de quem a força parecia um mar, os francos deram-se mutuamente a paz e pediram uns aos outros um mútuo perdão. Em seguida engajaram a batalha.

“No mesmo instante o Senhor fez cair violenta tempestade, que levantava a poeira do lado dos francos e a lançava no rosto dos turcos.

“Então os francos, compreendendo que o Senhor havia aceito seu arrependimento, tomaram coragem, enquanto os turcos deram meia-volta e fugiram. Os francos os perseguiram, matando e massacrando durante o dia todo”.

Somente a fidelidade dos mamelucos salvou Saladino de morte certa.

Balduíno IV retornou a Jerusalém como triunfador e foi render graças ao Deus dos Exércitos na igreja do Santo Sepulcro.

“Jamais vitória cristã mais bela tinha sido infligida ao Levante, e todo o mérito voltava-se ao heroísmo do rei, cuja juventude [tinha então 17 anos], triunfando por um instante do mal que corroía o corpo, igualou-se em maturidade a um Godofredo de Bouillon ou a um Tancredo”.






O jovem rei doente que se fazia temer e respeitar pelos muçulmanos


Coroação de Amaury I, rei de Jerusalém
Biblioteca Nacional da França, Mss fr 68, folio 297v
A morte do rei de Jerusalém Amaury I [pai de Balduíno IV] foi um desastre. Jamais uma desaparição teve tão graves consequências para o destino de um Estado.

Como político audacioso, Amaury optou por vias novas, com iniciativas através das quais a Cruzada seria triunfante ou ferida de morte.

Após conseguir durante um momento estabelecer o protetorado franco sobre o Egito, viu seu intento virar contra ele e o Egito cair precisamente no poder do mais temível dos chefes muçulmanos: o grande Saladino.

Mas a última palavra ainda não havia sido pronunciada e tudo podia ser consertado. Porém, o destino levou-o brutalmente no momento decisivo.

Sua morte deixara o campo livre para Saladino. Este se apresentou em 25 de novembro de 1174 diante de Damasco, entrou sem encontrar resistência e anexou a grande cidade.

Homs e Hama tiveram a mesma sorte. Com exceção de Alepo, Saladino ficou dono da Síria muçulmana e do Egito.

Virada catastrófica de situações! Na véspera, o reino franco de Jerusalém se beneficiava da divisão político-confessional entre o Cairo e a Síria, manipulando à vontade a anarquia muçulmana e apresentando-se como árbitro do Oriente.

Eis que, da noite para o dia, ele se encontrou cercado por uma poderosa monarquia militar dirigida por um chefe de talento, prestes a explorar todas as divisões dos francos.

Para recolher essa terrível herança, Amaury I só deixou um filho de treze anos, o jovem Balduíno IV.

É verdade que o adolescente sobre quem pousava o destino da França de ultramar mostrava ser um dos mais brilhantes representantes da dinastia de Anjou.

Ele era, segundo nos conta Guilherme de Tiro, um menino charmoso e notavelmente dotado: formoso, vivo, aberto, ágil nos exercícios físicos, perfeito ginete.

Ele tinha uma grande rapidez de espírito e uma excelente memória — “jamais esqueceu um insulto, menos ainda um favor” —, manifestava-se como o mais cultivado dos príncipes de sua família.

Desde os nove anos fora-lhe dado como preceptor o futuro arcebispo Guilherme de Tiro, historiador e homem de Estado, que depois seria seu chanceler.

Sabemos pelo testemunho do mestre que o aluno aproveitava admiravelmente as aulas, especialmente as de letras latinas e o estudo da história, que o apaixonava.

Mas já nas primeiras linhas do retrato emocionado que Guilherme de Tiro desenhou de seu real aluno, pode-se apalpar um fundo de tristeza.

Esse menino tão formoso, tão comportado e já tão cultivado, fora atingido secretamente do mal horrível que lhe valeu o apelido de Balduíno o Leproso.

Guilherme nos conta como foi percebida a doença, num dia em que o jovem príncipe brincava com outras crianças.

“Acontecia que no entusiasmo do jogo as crianças machucavam as mãos, e então choravam. Somente o pequeno Balduíno não se queixava. Guilherme ficou surpreso. O menino respondeu que não sentia nada. Viu-se então que sua epiderme era realmente insensível. Foi confiado aos mires, mas sua arte se revelou impotente para curá-lo”.

Foram os primeiros sintomas da terrível doença que, ano após ano, foi fazendo desse adolescente cheio de valia um cadáver vivo.

O reinado do infeliz jovem de 1174 a 1185 – subiu ao trono com 13 anos e morreu com 24 – não foi, entretanto, apenas uma lenta agonia, mas uma agonia a cavalo, enfrentando o inimigo, sempre ereto, em virtude do sentimento da dignidade real, do dever cristão e das responsabilidades da coroa nessas horas trágicas onde ao drama do rei correspondia ao drama do Reino.

E quando a doença piorou e o Leproso não mais podia montar na sela, ele se fez levar de liteira ao campo de batalha e a simples aparição desse moribundo sobre a liteira punha em fuga os muçulmanos.




O rei cruzado e leproso de Jerusalém: um amado de Deus


Coroação de Balduíno IV
Coroação de Balduíno IV
Nos dias que se seguiram à morte de Amaury I e após a sagração de seu sucessor na Coroa do Santo Sepulcro, começou a luta pelo poder em volta do jovem doente.

Porém, como o reino corria grave perigo, o realismo prevaleceu e o instinto de conservação dominou o “Parlamento”, reunião realizada em Jerusalém no fim de 1174.

Dito “Parlamento” aclamou Raimundo III, conde de Trípoli, como regente, com o apoio da unanimidade dos bispos e dos nobres, decisão que “todo o povo recebeu com grande alegria”.

Tão logo assumiu sua função, o regente deu um golpe de mestre contra o Islã. No transcurso do inverno 1174—1175, Saladino veio sitiar Alepo. Se ele conseguisse tomar a praça, a unidade muçulmana ficaria selada do Sudão ao Eufrates.

Mas o conde de Trípoli correu e, com uma rápida intervenção sobre Homs, obrigou Saladino a deixar sua presa (fevereiro de 1175).

Enquanto o regente trabalhava desse jeito no norte, o menino-rei não ficava inativo na Palestina.

No mesmo ano de 1175, no momento da safra, ele se pôs à testa dos seus (tinha então 14 anos e a doença ainda não havia arrasado sua energia física). Conduziu então uma brilhante cavalgada para além do maciço do Hermon até Dareya, apenas a cinco quilômetros de Damasco.

Saladino se viu diante da perspectiva de uma guerra em duas frentes e preferiu fazer a paz com os francos.

Porém, foi apenas um adiamento. Levado pelo desejo de completar a unidade da Síria muçulmana, Saladino voltou a sitiar Alepo em julho de 1176.

O jovem Balduíno IV voltou a se pôr em campanha, desta vez visando o fértil vale da Beqaa.

Após derrotar um corpo de exército damasceno perto de Andjar, Balduíno conduziu com “grande alegria” sua cavalaria até Tiro, onde o botim foi dividido.

Assim, sob o reinado do pobre leproso adolescente, inclusive na presença da unidade muçulmana reconstituída em quase três quartas partes, os francos mantinham o Islã em xeque.


(Autor: René Grousset, de l’Académie française, L’épopée des Croisades, Perrin, Paris, 2002, 321 páginas; pp 171 e ss. Excertos).




Quase cego e imobilizado, vence a Saladino e a inépcia dos vassalos


Balduíno IV na batalha de Montgisard. Charles Philippe Larivière (1798-1876).
Balduíno IV na batalha de Montgisard. Charles Philippe Larivière (1798-1876).
A brilhante vitória do jovem soberano na Beqaa só fazia aumentar o pranto pela doença incurável que o tinha atingido.


A lepra piorava, vedando-lhe qualquer esperança de casamento. No lendemain de seu triunfo ele se encontrou na obrigação de acertar as questões relativas à sucessão.

A escolha de Balduíno IV e de seus conselheiros recaiu no barão piemontês Guilherme Longa-Espada, filho do marquês de Montferrato.

No início de outubro de 1176 esse loiro jovem, um dos mais formosos e valentes cavaleiros de sua época, desembarcou em Sidon, onde desposou a princesa Sibila, irmã de Balduíno, em meio a magníficas festas.

Mas a sorte se encarniçava contra a França de ultramar. Após poucos meses, o paludismo levou Guilherme à cidade de Ascalon, voltando o problema da sucessão a ficar em aberto (junho de 1177).

Nesse ambiente desembarcou na Palestina, acompanhado de uma impressionante escolta, um cruzado ilustre: o conde de Flandres Filipe de Alsácia. Balduíno IV, que era seu primo em primeiro grau, acolheu-o como um salvador.

Justamente naquele momento, o imperador bizantino Manoel Comneno cumpria com as promessas feitas ao falecido rei Amaury e anunciava o envio de uma Armada para cooperar com os francos numa nova incursão no Egito.

Porém, Filipe recusou-se a participar dessa expedição que lhe parecia incerta. Não deixava de ser verdadeiro que o império de Saladino só podia ser derrubado no Egito, mas com a condição de que franceses e bizantinos dessa vez cooperassem nas operações com idêntico ardor.

Malgrado as súplicas patéticas do Rei Leproso, Filipe da Alsácia ficou obstinado na sua recusa. Sentindo-se rejeitados, os almirantes bizantinos fizeram vela.

Por sua parte, em lugar de atacar Saladino no ponto vulnerável que era o delta do Nilo, Filipe partiu para lhe fazer guerra na Síria do norte, não sem levar emprestado as melhores tropas do reino de Balduíno IV.

Saladino percebeu que, assim agindo, a Palestina ficava desguarnecida de defensores. Deixou então logo o Egito com sua cavalaria, e conduziu um ataque fulminante contra Ascalon, a principal via de circulação do poder franco no sudoeste.

Nessa situação angustiante, o jovem rei foi heroico.

Ele só tinha ao alcance das mãos cerca de 400 homens. Reunindo todos os soldados que podia, saiu para interceptar o invasor com a relíquia da Verdadeira Cruz.

Sua marcha foi tão rápida que ele se adiantou a Saladino em Ascalon. Mas apenas entrou na fortaleza, foi atacado pelo exército egípcio, composto por 26 mil homens.

A situação dos francos parecia tão desesperadora que Saladino negligenciou esse pequeno e miserável exército, cuja rendição lhe parecia questão de horas.

Ele deixou então Ascalon sitiada por alguns magotes de tropas e partiu direto contra a Judeia e Jerusalém, desprovidas de defensores.

Balduíno IV na batalha de Montgisard, detalhe.
Charles Philippe Larivière (1798-1876).
Enquanto passava pela planície que se estende de Ascalon até Ramla, ele ia queimando as cidadezinhas e pilhando as quintas, deixando que seus esquadrões se enriquecessem com o saque de toda uma região.

Em sua marcha triunfal e sem obstáculos, ele chegou perto de Telle Djezer, que os francos chamam de Montgisard.

Ali ele foi comandar a travessia do leito de um rio seco (“oued”) quando, para sua estupefação, viu surgir por cima de si, do lado menos esperado, esse exército franco que ele julgava reduzido à impotência atrás das muralhas de Ascalon (25 de novembro de 1177).

É que ele não tinha levado em conta Balduíno IV.

Assim que o rei, desde o alto das torres de Ascalon, constatou a partida de Saladino, saiu a campo com seu pequeno exército.

E, em lugar de seguir o inimigo pela grande rota de Jerusalém, ele o fez por um atalho ao norte, ao longo da costa, virando em linha reta para o sudeste e cortando a estrada dos muçulmanos.

Um vigoroso desejo de vingança crescia na pequena tropa enquanto atravessava os campos incendiados pelos predadores inimigos. Perto de Ramla, perceberam as colunas muçulmanas entrando no leito do rio.

Com certeza, em qualquer outra ocasião, a cavalaria franca teria hesitado diante de sua incrível inferioridade numérica, mas o fogo dos primeiros cruzados animava o Rei Leproso.

“Deus, que faz aparecer sua força nos débeis, escreveu Miguel o Sírio, inspirou o rei doente. Ele desceu de sua montaria, prosternou-se em terra diante da Cruz e rezou com lágrimas nos olhos. Diante deste espetáculo, o coração de todos os soldados ficou emocionado, jurando eles sobre a Cruz não retroceder e ter em conta de traidor quem quer desse meia-volta. Eles voltaram a montar os cavalos e carregaram”.

Na primeira fileira ia a Verdadeira Cruz, levada pelo bispo D. Aubert de Belém. Ela iria mais uma vez dominar a batalha: mais tarde os combatentes cristãos disseram ter tido a impressão de que no meio do engajamento ela parecia imensa a ponto de tocar no céu.

Os cronistas nos descrevem Balduíno IV e seus 400 cavaleiros imergindo e desaparecendo num instante entre a multidão das forças muçulmanas que tentavam se reorganizar no leito do rio seco.

Os muçulmanos acharam de início que afogariam os cristãos pelo peso do número, mas logo começaram a perder o controle diante da fúria francesa.

Batalha de Montgisard, conceito moderno
Batalha de Montgisard, conceito moderno
“O local da passagem, diz o “Livro dos dois jardins”, ficou entulhado com as bagagens do exército. Subitamente surgiram os esquadrões dos francos, ágeis como lobos, latindo como cachorros, que carregaram em massa, ardendo como chamas. Os muçulmanos perderam pé”.

Saladino, o sultão do Egito e de Damasco, com seus milhares de turcos, curdos, árabes e sudaneses, fugiu diante dos 400 cavaleiros do jovem leproso.

E foi uma fuga em debandada, jogando bagagens, cascos, armas, galopando através do deserto de Amalek, em linha reta rumo aos córregos de Egito e do delta do Nilo.

Balduíno IV passou dois dias para recolher um botim prodigioso em todas as estradas, e depois retornou a Jerusalém num cortejo triunfal.

De fato, vitória cristã mais bela jamais foi obtida no Levante. E na ausência do conde de Flandres e do conde de Trípoli, todo o mérito recaiu no heroísmo do rei que com seus 17 anos se igualava à maturidade de um Godofredo de Bouillon ou de um Tancredo, triunfando ainda que por um instante sobre a doença que corroía seu corpo.


Balduíno aproveitou a vitória de Montgisard para pôr a Galileia a salvo das incursões oriundas de Damasco.

Em outubro de 1178, ele ergueu uma poderosa fortaleza no Outeiro de Jacó, sobre as margens do alto Jordão, destinada a controlar a rota histórica que vai de Tiberíades a Qouneitra.

Mais ao norte, nas fontes do Jordão, disputou aos damascenos a região de Baniyas, velha marca fronteiriça perdida havia pouco tempo.

Em abril de 1179, junto com seu condestável Onfroi de Toron, ele executou uma incursão não muito feliz, sendo surpreendido pelas tropas damascenas.

Responsável pela imprudência que pôs tudo a perder, o velho condestável salvou o jovem rei cobrindo-o com seu próprio corpo na retirada, e, crivado embora de feridas, conteve o inimigo e morreu com a honra salva em seu castelo de Hounin.

Entrementes, Saladino voltou do Egito com um novo exército e preparou em Baniyas a invasão da Galileia.

Ousadamente, Balduíno IV resolveu antecipar-se.

Colocou-se à testa de sua cavalaria e acompanhado pelo conde de Trípoli galopou até a entrada de Mardj Ayoun, a “pradaria” situada entre o grande cotovelo que forma o rio Litani e o bosque de Baniyas.

Ali, desde as alturas de Hounin, ele contemplou as massas inimigas operando sua concentração, enquanto os provedores de forragens retornavam de suas lucrativas pilhagens na Fenícia.

Renovando o golpe de surpresa de Montgisard, Balduíno se lançou sobre esses destacamentos isolados e os pôs em fuga.

Infelizmente, na descida demasiado rápida da montanha, os cavaleiros tinham em alguma medida se dispersado. O que deu a Saladino tempo de acorrer com o grosso de suas forças a partir de seu quartel-general.

Reorganizando os fugitivos, Saladino caiu sobre a ofegante cavalaria franca, dispersando-a após um furioso embate.

Balduíno IV e o conde de Trípoli conseguiram escapar, mas o número dos mortos e dos cativos foi considerável (1° de junho de 1179).

Algumas semanas depois, Saladino foi arrasar a fortaleza do Outeiro de Jacó, acabando ali as hostilidades.

No ano seguinte, Balduíno IV e Saladino concluíram uma trégua renovável, que no direito franco-muçulmano da época equivalia à paz.

Tudo somado, durante esses três anos, o rei leproso havia enfrentado face a face o temido sultão, e o acordo de 1180 consagrou o statu quo.

Infelizmente, o estado de Balduíno IV se agravava. A lepra se manifestava em toda a sua repugnância. E, com os estigmas, o temperamento do heroico jovem se toldava.

A herdeira do reino era sua irmã Sibila, a quem o marido, antes de morrer, deixou grávida de um filho, Balduíno V.

Como o rei Leproso podia desaparecer de um momento para outro e era de se prever uma longa regência, era necessário casar a princesa o mais cedo possível.

O rei e a corte procuravam um partido conveniente nas famílias soberanas do Ocidente, quando a princesa fez saber que seu coração estava com um jovem sem fortuna, sem educação e sem qualidades pessoais: Guy de Lusignan.

O romance foi ter consequências políticas desastrosas. Guy era desservido por suas qualidades negativas.

Tido como tapado na própria família, quando ficaram sabendo que “Guion” – como era apelidado – estava a ponto de ganhar uma coroa pelo raio de uma rainha fantasiosa, seu irmão mais velho estourou de rir: “Se Guy ficar rei, por que eu não ficaria deus?”

Resumindo os detalhes que nos fornecem os cronistas: uma corte em decadência, uma herdeira do trono que trazia um belo homem sem valor; a outra irmã do rei escolhia um jovem senhor insignificante, uma rainha mãe frívola, cúpida, só intervindo em favor de uma camarilha.

Por seu lado, o rei sucumbia sob a lepra e, apesar de seu grande valor, passava mais frequentemente o tempo aniquilado pela repugnante doença. Todos os elementos para a queda de um Estado.

Só um homem podia salvar o reino: o conde de Trípoli, Raimundo III. Mas ele era precisamente o odiado pela camarilha.

Mais um ator iria ganhar um lugar preponderante nas questões do Reino: o antigo príncipe de Antioquia, Renaud de Châtillon, que tinha saído das prisões turcas.

Saladino, Cristofano dell'Altissimo (c 1525–1605)
Saladino, Cristofano dell'Altissimo (c 1525–1605)
Vinte anos atrás, como príncipe de Antioquia, por suas malfeitorias e atrocidades ele tinha revoltado o império bizantino contra os francos.

Mas o que aconteceria se ele renovasse os mesmos atos de banditismo contra um adversário como Saladino?

Bruscamente, sem contrapeso nem freios, o velho aventureiro ia arrastar o reino para a aventura.

No verão de 1181, em plena paz e sem mesmo ter tido a ideia de denunciar a trégua, ele entrou na Arábia com a esperança de pilhar os peregrinos até a Meca.

Ele não conseguiu executar seus projetos, mas surpreendeu e roubou uma caravana que ia tranquilamente para Damasco.

A notícia dessa agressão insensata atirou na consternação a corte de Jerusalém. Balduíno IV foi tomado de violenta indignação pela conduta de seu vassalo.

A paz, tão indispensável para os francos, fora rompida em circunstâncias odiosas, ficando aos olhos de todo o Islã como uma violação da fé engajada.

Renaud recusou brutalmente todos os apelos à honra ou ao dever a ele dirigidos. O infeliz rei confessou sua impotência a Saladino. Foi a guerra geral.

Ao mesmo tempo, foi a ruína da autoridade monárquica e do Estado franco. O mais poderoso dos vassalos feudais aproveitou da decadência física do rei leproso para proclamar implicitamente o fim da monarquia.

Desafiando-a abertamente, ele jogou o rei e o reino na via do suicídio.

Do Cairo, Saladino acorreu a Transjordânia com todo o exército egípcio. Renaud de Châtillon, que acabava de desrespeitar a autoridade real, implorou o auxílio de Balduíno IV para preservar seu feudo.

O jovem rei, cuja santidade igualava ao heroísmo, teve a generosidade de ouvir esse apelo, apesar do risco de desguarnecer a Palestina.

Ele desceu com o exército francês para Moab; mas, evitando o engalfinhamento, Saladino escapuliu para Damasco, enquanto outros corpos muçulmanos faziam incursões pela Galileia a sangue e a fogo.

O sultão atravessou o Jordão com todas suas forças, invadiu a Galileia, atacou a praça de Beisan e a fortaleza franca de Belvoir, atual Kaukab, que defendia a rota de Nazaré.

O exército de Balduíno voltou de Moab e tomou posição diante dele. Apesar da inferioridade numérica, os francos apresentaram uma atitude tão fera, que Saladino, diante da agressividade do contra-ataque, voltou a atravessar o Jordão vencido (julho de 1182).

Diante de um adversário com a atividade de Saladino, teria sido necessário que o rei leproso estivesse sem cessar acima do cavalo para frustrar os planos inimigos.

As campanhas francas do outono de 1182 tinham salvo a independência de Alepo dos ataques do sultão.

Mas, no ano seguinte, a imperícia dos últimos reis turcos locais lhe entregou a cidade (junho de 1183). A partir dali, a Síria muçulmana pertencia ao grande sultão, do mesmo modo que todo o Egito.

Pese os esforços desesperados de Balduíno IV, a situação dos francos se degradava cada vez mais. Após a anexação de Alepo, Saladino voltou à sua boa cidade de Damasco a fim de organizar a invasão da Palestina (agosto de 1183).

Sabendo desta notícia, Balduíno convocou todas as forças francas nas fontes de Sephoria, na Galileia, ponto de concentração habitual das armas cristãs. Foi lá que a doença venceu seu heroísmo.

Após uma interrupção de alguns meses, a terrível doença retomou seus progressos. Balduíno IV entrou em estado terminal.

“Sua lepra – diz o cronista – debilitava-o até o ponto de ele não mais conseguir fazer uso de suas mãos e de seus pés. Ele estava todo apodrecido e ia a perder a visão”.

Nesse estado, quase cego, longamente imobilizado em seu leito, um cadáver vivo, ele ainda lutava contra o destino. Quem acompanhou sua atividade desde o início da doença compreende o combate patético e doloroso que ele livrou contra si mesmo.

Com sua alma heroica, ainda nesse estado ele queria governar. Em vão seus próximos o aconselhavam a abandonar suas funções, a retirar-se em algum palácio “com boas rendas, para viver honrosamente”.

Ele recusava, diz a crônica, “porque embora fosse débil de corpo, tinha a alma elevada e a vontade voltada para além das forças humanas”. Mas derradeiros acessos de febre acabaram por abatê-lo.

Impulsado pela unanimidade do sentimento islâmico, Saladino agiu com decisão. Uma frota egípcia posta por ele no Mar Vermelho, destruiu a flotilha franca.

E em novembro de 1183, à testa de um poderoso exército, ele foi pessoalmente assediar a fortaleza de Renaud de Châtillon, o famoso Crac de Moab, nosso Kerak, na Transjordânia.

Sob o bombardeio incessante da artilharia, a muralha ameaçava desabar quando, mais uma vez, a realeza salvou os vassalos imprudentes.

A labareda de um grande fogo aceso sobre a Torre de Davi, em Jerusalém, reproduzida por um castelo e outro, provocou a aparição de sinais iguais sobre as torres de menagem da Judeia meridional até o mar Morto. Ela anunciava aos sitiados do Crac de Moab que o auxílio se aproximava.

Apesar de parecer-se mais com um cadáver, Balduíno IV foi mais uma vez rei.

Cego, paralisado, moribundo, ele convocou suas tropas, a cuja testa pôs o conde de Trípoli, e as acompanhou numa liteira até Kerak.

Mais uma vez, Saladino fugiu diante dele, sem mesmo aguardá-lo.

O rei leproso fez uma entrada triunfal na fortaleza, saudado como um salvador pela multidão dos sitiados.

Ele reconfortou a guarnição, fez reconstruir as partes danificadas dos muros, e voltou a Jerusalém, após cumprir até o fim seu dever de chefe, em dezembro de 1183.


(Autor: René Grousset, de l’Académie française, L’épopée des Croisades, Perrin, Paris, 2002, 321 páginas, pp 171 e ss. Excertos).




Balduíno IV é enterrado ao pé do Gólgota, junto ao Santo Sepulcro


Raimundo de Tripoli nomeado regente. BNF Français 2824, fol. 162v
Raimundo de Tripoli nomeado regente.
BNF Français 2824, fol. 162v
Os últimos meses do reinado de Balduíno IV quase viram estourar uma guerra civil sob o olhar inimigo.

Guy de Lusignan aproveitou-se de uma ausência de Balduíno para correr até Jerusalém, onde estava Sibila, e levá-la consigo antes do retorno do rei.

Refugiou-se com ela em seu feudo de Jaffa-Ascalon e recusou atender às ordens do rei, que lhe exigia comparecer na sua presença. Foi então luta aberta.

O rei marchou sobre Ascalon, cujas portas encontrou fechadas. Mas conseguiu tomar Jaffa. Em seguida reuniu um “parlamento” em São João de Acre, para acabar com o rebelde.

O patriarca Heráclio e o Grande Mestre do Templo tentaram interceder por ele.

Mas Guy tornava desmerecido o perdão também pelo fato de ser culpado por uma ação abominável.

Nas circunvizinhanças de Ascalon viviam beduínos nômades, tributários e ‘clientes’ do rei. Eles faziam pastar seus rebanhos com toda confiança quando, para causar dano ao soberano, Guy se jogou sobre eles e os massacrou.

A cólera de Balduíno IV diante desse ato de felonia foi terrível. Ele acabou então confiando todo o seu poder ao conde de Trípoli, inimigo de Lusignan (1185).

Já não havia mais tempo, os acontecimentos se precipitavam. O rei leproso deitou-se, para nunca mais se levantar.

Ele mandou chamar os grandes vassalos e, diante deles, renovou sua vontade de deixar a regência ao conde até a maioridade do jovem Balduíno V.

O príncipe heroico, cujo reinado não foi senão uma lenta agonia, entregou sua alma a Deus em 16 de março de 1185.

Considerando-se que ele tinha apenas 24 anos e tudo o que pôde realizar durante esses breves anos a despeito da lepra, de sua impotência e cegueira finais, fica-se tomado de respeito e de admiração.

Balduíno V de Jerusalém
Balduíno V de Jerusalém, entronizado rei
Ele soube manter até seu último suspiro a autoridade monárquica e a integridade do reino, e soube morrer como rei.

As crônicas evocam a dramática cena em que, vendo aproximar-se seu fim, ele convocou diante de si todos os grandes do Reino.

“Antes de morrer, ele ordenou a todos seus vassalos para se apresentarem em Jerusalém. E vieram todos, e, quando ele partiu deste século, todos presenciaram sua morte”.

Da mesma maneira que os cronistas francos, os historiadores árabes se inclinaram diante de sua lembrança.

“Esse menino leproso soube fazer respeitar sua autoridade”, escreveu el-Imâd de Ispahan como que com uma saudação de espada.

Estoica e dolorida figura, talvez a mais nobre da história das Cruzadas, cujo heroísmo tocava na santidade. Nem as pústulas nem as crostas que a cobriam foram capazes de dobrá-la; efígie pura de rei francês que eu gostaria colocar ao lado de um São Luís IX.

Liberado de seu longo martírio, o rei leproso foi sepultado junto do Gólgota e do Santo Sepulcro, onde morreu e repousou o Homem das Dores por excelência – Deus.


(Autor: René Grousset, de l’Académie française, L’épopée des Croisades, Perrin, Paris, 2002, 321 páginas, pp 171 e ss. Excertos).




“Possamos venerar Balduíno IV nos altares!” Missa de réquiem em Paris, 830 anos depois


Na igreja de St-Eugene Ste-Cecile, foi celebrada uma missa de réquiem  pelo repouso eterno do rei de Jerusalém Balduíno IV
Na igreja de St-Eugene Ste-Cecile, Paris: missa de réquiem
pelo repouso eterno do rei de Jerusalém Balduíno IV
A gloria luminosa que envolve a figura do rei de Jerusalém Balduíno IV vara os séculos. E vem crescendo enquanto o Islã tenta sucessivos e criminosos golpes contra os restos da Civilização Cristã.

Testemunho eloquente disso foi o sermão pronunciado no sábado, 14 de março de 2015, na missa de réquiem pelo heroico rei leproso, por ocasião do 830º aniversário de sua morte.

A missa foi celebrada na igreja de Saint-Eugène-Sainte-Cécile, situada no coração de Paris, tendo o vigário, Pe. Éric Iborra, evocado a memória de Beduíno IV com estas palavras, que dispensam comentários:

“Faz o que deves, aconteça o que acontecer”. No dia 16 de março de 1185, há 830 anos, expirava Balduíno IV de Jerusalém. Ele tinha 24 anos.

“Humildemente, insensivelmente, abandonava seu corpo devorado pela doença na Jerusalém terrestre, a cuja defesa se consagrara inteiramente, para ir morar na Jerusalém celeste, residência prometida pelas Escrituras, à qual aspirava com todo o seu ser, e ali conhecer a beatitude num corpo glorioso.

“Ele, o débil, o doente, havia conseguido deter o avanço de Saladino, o maior, o mais poderoso, o mais determinado dos inimigos que a Terra Santa jamais conheceu.

“Após doze anos de reinado, ele deixava intacta a herança que lhe havia legado seu pai.

“No leito de morte, ele convocou pela última vez os grandes senhores feudais do Reino.

“O adeus a cada um foi impressionante e lancinante, pronunciado por esse ser desfigurado cujo simples semblante provocava o espanto e uma profunda compaixão.

“Em meio ao denso silêncio dos barões, um sopro de voz saía de lábios deformados com um tom tão particular e tão enternecedor, com leves defeitos de pronúncia, pedindo a todos jurar fidelidade a seu sobrinho e herdeiro, e respeitar suas derradeiras vontades relativas à regência.

Morte de Balduino IV e coroação de Guy de Lusignan, Biblioteca de Genebra, FAL_021866
Morte de Balduíno IV e coroação de Guy de Lusignan.
Biblioteca de Genebra, FAL_021866
“Tocados no mais profundo de si mesmos, transpassada sua rude carapaça por tanta grandeza e devotamento, todos juraram com emoção para comprazê-lo, e testemunharam-lhe pela última vez sua confiança, sua fidelidade e seu afeto.

“Então, Balduíno acabou de completar seu último combate.

“Foi assim que partiu Balduíno de Jerusalém, o rei leproso, ‘estoica e dolorosa figura, a mais nobre talvez da história das Cruzadas, figura cujo heroísmo, sob as pústulas e as crostas que o cobriam, continha a santidade, a verdadeira esfinge do rei francês’” [René Grousset, L’épopée des croisades, Perrin, 2000, p. 181.1].

“Uma figura desfigurada, aliás, muito esquecida – na França pelo menos –, como está esquecida também a lembrança desse reino franco da Terra Santa que seus sucessores não souberam conservar.

“Esquece-se daquele que, durante dez anos, enfrentou Saladino e o fez fugir mais de uma vez.

“Esquece-se que esse rei era um adolescente.

“Esquece-se que, durante o seu reinado, ele teve de suportar uma das provações mais severas que um ser humano possa experimentar: a da lepra.

“Esquece-se que, apesar da adversidade, seu país era próspero e as cidades, que depois foram riscadas do mapa, eram ricas!

“Lembra-se demasiadamente das falhas cometidas após sua morte e negligenciam-se as realizações notáveis de seu reinado.

“Deve-se sempre lembrar que ele emergiu vitorioso de três inimigos que o assaltaram sem descanso: Saladino, as intrigas da Corte em torno de sua sucessão, e sua doença.

“Vamos evocá-los sucessivamente.

“Saladino foi esse fanático general curdo que tomou o Egito e a Síria quando o pai de Balduíno morreu.

Balduino IV derrota Saladino perto de Ascalon
Balduíno IV derrota Saladino perto de Ascalon
“Tanto que “o reinado do infeliz jovem”, diz R. Grousset, “foi apenas uma longa agonia, mas uma agonia a cavalo, voltada contra o inimigo, que enalteceu a condição da dignidade real, do dever do cristão e da responsabilidade da Coroa nessas trágicas horas em que o drama do rei correspondia ao drama do reino” (Grousset, ibid.).

“Nunca, enquanto Balduíno viveu, Saladino conseguiu obter uma real vantagem.

“E as vitórias mais gloriosas das Cruzadas foram as do leproso adolescente.

“Coroado em 1174, ele repeliu os turcos pela primeira vez em 1176, aos 15 anos, quando acabava de atingir a maioridade.

“Em 1177, em Montgisard, quando não tinha ainda 17 anos e a situação parecia desesperada, com apenas 400 cavaleiros, ele pôs para correr um exército de 26 mil homens.

O Patriarca de Antioquia, Miguel o Sírio, narra:

“Deus, que faz a sua força aparecer nos fracos, inspirou o rei.

Montgisard
Montgisard
“Ele desceu da sua liteira, curvou-se com sua face no chão diante da Verdadeira Cruz e orou com lágrimas.

“Nessa visão, o coração dos soldados estremeceu, e eles juraram pela Cruz não recuar e considerar como um traidor quem quer que retrocedesse.

“Eles montaram seus cavalos e carregaram”.

“Foi uma vitória brilhante.

“A guerra continuou durante os três anos seguintes, culminando numa trégua infelizmente quebrada pela culpa do cruel e inconsistente Renaud de Châtillon.

“Balduíno abafou toda queixa, foi assistir seu vassalo e derrotou o sultão. E não deixou de se opor a suas renovadas ofensivas.

“Com o corpo carcomido pelas úlceras, quase cego e incapaz de deixar sua liteira, o rei galvanizou as tropas e fez o inimigo fugir, tomado de estupefação vendo a energia sobre-humana desse cadáver ambulante”.


(Fonte: Le Rouge et Le Noire, 16/3/2015)




Balduíno IV, modelo perfeito de monarca francês, espelho do próprio Cristo


Sagração real de Balduíno IV
Sagração real de Balduíno IV
“O segundo inimigo contra o qual Balduíno teve que lutar foi a sua Corte e, nela, especialmente sua parentela.

“Se ele ao menos pudesse apoiar-se em fiéis excepcionais como o arcebispo e o cronista Guilherme de Tiro, o marechal Onfroy de Toron ou o conde Raimundo de Trípoli!

“Mas todos cobiçavam sua sucessão sem medir o peso que a mesma implicava, faziam complô e acabaram apressando o fim do monarca.

“Não foram necessários dois anos para que as intrigas levassem a regência à ruína e o reino caísse sob os golpes dos turcos.

“Nisso consistiu a funesta Batalha de Hattin. À ambição de alguns se acrescentou a vaidade de outros, enquanto na Europa, de onde a ajuda poderia vir, a indolência atiçada por rivalidades dinásticas paralisava príncipes e reis.

“Ao longo de seu reinado, Balduíno sempre foi decepcionado por aqueles que deveriam ter sido seus maiores sustentáculos.

“Com paciência, abnegação e muita dificuldade, ele se esforçou para reconciliá-los e mobilizá-los ao serviço do bem comum.

“Pois ele lutava a cada momento contra um terceiro inimigo, ainda mais íntimo: a lepra, que apodrecia seu corpo, apresentada na Bíblia como símbolo do pecado que desfigura a alma.

“Lepra: a doença que destruindo as terminações nervosas torna o corpo insensível, mas que também, devido ao horror e às enfermidades que provoca, também tran
spassa o coração de dor.
Missa de réquiem em St-Eugene Ste-Cecile pelo rei Luís XVI, da França
Missa de réquiem em St-Eugene Ste-Cecile pelo rei Luís XVI, da França

“Tanto mais quanto Balduíno tinha tudo em favor de si: era belo, inteligente, corajoso, excelente cavaleiro, um cavalheiro completo.

“Prostrado pelos assaltos progressivos desse mal incurável, ele oferecia um exemplo admirável de equilíbrio emocional e de abnegação, esquecendo-se de si mesmo para se entregar totalmente ao serviço do reino que a Providência lhe confiou.

“Foi nesse momento que se manifestou sua grandeza, e é preciso sublinhá-lo: uma grandeza sobrenatural!

“Entre os choques das ambições, da violência e da luxúria, sob o Sinal da Cruz esse filho místico não só realizou à perfeição a figura do príncipe de acordo com o Evangelho.

“Na provação da doença, na angústia solitária e na morte precoce, ele também foi um Cristo de dores coroado de ouro e de espinhos” (Pierre-Henri Simon, Discurso de recepção na Academia Francesa).

“Cristo de dores coroado de ouro e de espinhos”!

“Sim, Balduíno aceitou carregar em sua própria carne o peso dos pecados do mesmo modo como Cristo também o padeceu de modo muito real em sua carne.

“Balduíno é uma figura crística eminente, como haveria de o ser um século depois outro rei que se tornou um peregrino do Absoluto, roído por febres e morrendo deitado sobre cinzas em frente dos muros de Túnis: São Luís.

“Então, no momento de cantar o absoluto, é necessário rezar por ele? Não é mais adequado pedir-lhe que interceda por nós?

“Para que interceda pelo Médio Oriente, ao qual ele dedicou sua existência, e pela Europa, da qual ele descendia?

Balduíno IV passa a coroa a seu sobrinho Guy de Lusignan entre as intrigas da Corte
Balduíno IV passa a coroa a seu sobrinho Guy de Lusignan
entre as intrigas da Corte
“O Oriente Médio antes de tudo. Nestes dias em que o fanatismo e a barbárie dos herdeiros de Saladino aterrorizam os cristãos e os muçulmanos, seu exemplo tem toda atualidade.

“Ele lutou lealmente com armas contra seus inimigos, mas ao mesmo tempo os muçulmanos que se estabeleceram em seu reino confessaram preferir estar sob a Cruz que sob o Crescente.

“Pois ele era ao mesmo tempo justo e misericordioso, forte e corajoso.

“Nós sabemos hoje que o mundo islâmico não ganhará nada com o desaparecimento dos cristãos do Oriente. Seu humanismo aperfeiçoado pelo Evangelho é uma promessa de paz e de reconciliação para todos os que vivem nessa região.

“A continuação a Europa, nestes dias em que a nobreza da alma desertou dos palácios disputados por todos aqueles que estão morrendo de fome pelo poder.

“Vendo esses exemplos, lamentamos com desgarradora dor o tempo dos líderes com almas profundamente cristãs que se levantavam para aglutinar em torno de si os melhores e para impor respeito à matilha dos medíocres.

“Há hoje alguns que se pavoneiam à frente de nossas instituições, quando certamente não equivaleriam sequer ao serviçal que limpou o capacete do rei na manhã de Montgisard!

“A veleidade sempre existiu, mas ela deveria reconhecer pelo menos sua inferioridade diante de tais exemplos de luz.

“Uma luz toda interior, mas por isso muito mais deslumbrante, uma luz que nasceu das trevas da Sexta-feira Santa, uma luz que fortalece os corações puros e confunde os ímpios, uma luz tão contrária aos incêndios de um mundo fanático e grosseiro, ávido de poder e fascinado pela riqueza da vítima que ataca.

“Uma luz que se opõe aos fogos fátuos do mundo materialista, afogado em sua riqueza e em seu vazio existencial.

“Balduíno nos traz à memória as palavras do Profeta Samuel ao jovem Davi: “O olhar de Deus não é como o dos homens, pois o homem olha para a aparência, mas o Senhor olha para o coração” [2 Salmos 16, 7].

“Sua alma foi agradável ao Senhor, por isso Ele se apressou a sair logo do meio da perversidade”.
“Sua alma foi agradável ao Senhor, por isso
ele se apressou a sair logo do meio da perversidade”.
“Esse ensinamento é muito atual na hora em que neste mundo de aparências cosméticas e de superficialidade, estamos prestes a suprimir legalmente aqueles que nos evocam a debilidade do homem onde o poder de Deus pode transparecer.

“Hoje o moribundo, amanhã os deficientes e, por que não, depois de amanhã aqueles cuja mente não está em conformidade com o pensamento dominante.

“Não! A dignidade do homem não está na aparência do corpo, está na pureza do coração.

“Balduíno, o leproso, rei de Jerusalém, atravessou as sombrias tempestades da História como um astro de luz. De uma luz no meio das trevas cujo mistério apenas a fé pode decifrar.

“Tendo atingido em pouco tempo a perfeição, percorreu uma longa carreira. Sua alma foi agradável ao Senhor, por isso ele se apressou a sair logo do meio da perversidade”.

E o Livro da Sabedoria continua: “As multidões veem sem entender. O justo que morre condena os ímpios que vivem, e a juventude rapidamente consumada condena a longa velhice do injusto” [Sabedoria 4, 13-16].

“Nos dias em que a Igreja nos exorta a seguir mais de perto a Cristo, o exemplo de Balduíno, identificado até mesmo em sua carne com a Paixão de seu Mestre, nos convoca à força de alma, à inteligência política, a penetrar e assimilar o mistério do Salvador.

“Que nos seja dado um dia venerá-lo no alto dos altares!”


(Fonte: Le Rouge et Le Noire, 16/3/2015)


Missa de réquiem por Balduíno IV, Paris, 2015




A batalha de Montgisard










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